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Cultura, Representatividade e Poder: quem decide o futuro da cultura brasileira?

  • Foto do escritor: Sankofa cultural
    Sankofa cultural
  • 25 de mai.
  • 3 min de leitura

A pesquisa divulgada em 2025 sobre a concentração dos recursos da Lei Rouanet em São Paulo trouxe um dado que o setor cultural precisa encarar com maturidade: quase 90% dos recursos captados ficaram concentrados no centro expandido da capital paulista ao longo da última década.

Esse dado não revela apenas uma desigualdade territorial. Ele revela uma concentração histórica de acesso, relacionamento e poder de decisão.

E talvez a pergunta mais importante seja: quem está ocupando os espaços onde essas decisões são tomadas?

O problema não é falta de potência cultural

As periferias brasileiras produzem cultura diariamente. Os povos indígenas produzem cultura diariamente.A população negra produz cultura diariamente. A comunidade LGBTQIAPN+ produz cultura diariamente.

A música, a moda, o audiovisual, os saraus, os slams, o funk, o hip hop, os terreiros, os coletivos independentes e os movimentos culturais periféricos movimentam economicamente e simbolicamente o Brasil.

O problema nunca foi ausência de produção cultural. O desafio histórico sempre foi o acesso aos espaços de decisão.

Representatividade não pode existir apenas no discurso

Quando falamos sobre democratização cultural, precisamos entender que diversidade não pode aparecer apenas:

  • nos palcos;

  • nas campanhas publicitárias;

  • nos festivais;

  • ou nos discursos institucionais.

Ela também precisa existir:

  • nas diretorias;

  • nos conselhos;

  • nas curadorias;

  • nas bancas avaliadoras;

  • nas empresas patrocinadoras;

  • e nos espaços onde os investimentos culturais são definidos.

Porque quem decide o investimento cultural influencia diretamente quais narrativas terão espaço no país.

Os números mostram o tamanho do desafio

Mesmo sendo maioria da população brasileira, pessoas negras ainda ocupam uma parcela muito pequena dos cargos de liderança nas empresas brasileiras.

Levantamento do IBGC de 2025 mostrou que 82,6% dos cargos de alto escalão das empresas de capital aberto são ocupados por pessoas brancas, enquanto pessoas pretas representam apenas 0,5% dessas posições.

Outra pesquisa apontou que apenas 9,7% dos cargos mais altos de liderança corporativa são ocupados por pessoas negras.

Os dados revelam um problema estrutural: as populações que mais produzem impacto cultural e social ainda estão sub-representadas nos espaços onde as grandes decisões econômicas e institucionais acontecem.

Quanto mais diversidade existe na liderança, maior é a capacidade de transformação

Esse debate não deve ser usado para dividir o setor cultural.Ele deve servir para fortalecer a cultura brasileira de forma mais ampla, inclusiva e sustentável.

Ampliar representatividade nos espaços de liderança significa:

  • ampliar visões de mundo;

  • fortalecer novas narrativas;

  • aproximar investimentos de territórios historicamente invisibilizados;

  • e construir políticas culturais mais conectadas com a realidade do país.

Pessoas com diferentes trajetórias sociais enxergam impactos diferentes.E isso é essencial para uma política cultural verdadeiramente democrática.

O caminho é ampliar acesso e construir pontes

A solução não está em enfraquecer mecanismos culturais. A solução está em democratizar o acesso a eles.

Isso significa:

  • ampliar formação técnica;

  • fortalecer produtores independentes;

  • descentralizar oportunidades;

  • aproximar empresas de iniciativas periféricas;

  • incentivar novas lideranças;

  • e garantir mais diversidade nos espaços estratégicos do setor cultural.

O Brasil possui uma das maiores potências culturais do mundo.Mas para que essa potência seja plenamente desenvolvida, precisamos garantir que mais pessoas possam participar não apenas da execução da cultura — mas também das decisões que moldam seu futuro.

A transformação cultural passa pela inclusão estrutural

O debate sobre a Lei Rouanet em 2025 abriu uma oportunidade importante: repensar como os recursos culturais circulam e quem participa dessa construção.

O próximo passo do setor cultural brasileiro precisa ser: mais descentralização, mais acesso, mais formação, mais diversidade nos espaços de liderança, e mais oportunidades para quem historicamente esteve distante das redes de poder.

Porque fortalecer a cultura brasileira também significa ampliar quem pode decidir os caminhos dela.


Dan Gregor

 
 
 

1 comentário


margarethbravo
25 de mai.

Análise perfeita! E considerando que você atua principalmente em São Paulo, seu olhar generoso e justo, demonstram sua postura ética. Parabéns!

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